FISIOLOGIA SOB A PANDEMIA

Fundamentos da fisiopatologia do sistema respiratório acometido pela COVID-19

Os sintomas mais comuns apresentados pelos pacientes infectados pelo coronavírus dividem-se em duas categorias: distúrbios sistêmicos e distúrbios respiratórios. Dentre os distúrbios sistêmicos estão: febre, tosse, fadiga, entre outros. Já no distúrbio respiratório podem ser citados: dor de garganta, produção de muco, coriza, pneumonia e dispneia.

Nessa aula aprenderemos como funciona todo o mecanismo do corpo para chegar em estágios de tosse, queda da pressão e dificuldade para respirar. Na covid-19, quando o tecido pulmonar fica muito mais rígido, exige-se maior trabalho para respirar.

Prof. Dr. Camilo Lellis-Santos

Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP)

Department of Biological Sciences

COVID-19 e Sintomas Neurais 

Prof. Alberto A. Rasia Filho

 

     A atual pandemia da doença causada por coronavírus (COVID-19), relacionada ao vírus SARS-CoV-2, tem indicado a possibilidade de que alterações neurofisiológicas/neurológicas centrais e periféricas sejam sintomas a serem considerados juntamente com os demais achados clínicos nos pacientes infectados. É muito comum a percepção de febre, fadiga intensa e falta de apetite, indicando envolvimento nervoso. Recentemente, em vários países da Europa, maior percentual de quadros de anosmia, hiposmia e disgeusia súbitas tem sido relatado antes (11,8% dos casos como a primeira alteração percebida pelos pacientes), durante ou após a manifestação dos demais sintomas sistêmicos, geralmente leves a moderados, em pessoas com confirmação do contágio empregando-se RT-PCR. As alterações olfatórias são concomitantes à ocorrência de febre. Há comentários no Brasil de quadros similares, mencionado pela Academia Brasileira de Rinologia e a Associação Brasileira de Otorrinolaringologia e Cirurgia Cérvico-Facial, e relatos no mesmo sentido na Coréia do Sul, Irã, Alemanha e Estados Unidos da América.

     O presidente da Sociedade Britânica de Rinologia assim se referiu a esses achados: “Post-viral anosmia is one of the leading causes of loss of sense of smell in adults, accounting for up to 40% cases of anosmia. Viruses that give rise to the common cold are well known to cause post-infectious loss, and over 200 different viruses are known to cause upper respiratory tract infections. Previously described coronaviruses are thought to account for 10-15% cases. It is therefore perhaps no surprise that the novel COVID-19 virus would also cause anosmia in infected patients. There is already good evidence from South Korea, China and Italy that significant numbers of patients with proven COVID-19 infection have developed anosmia/hyposmia. In Germany it is reported that more than 2 in 3 confirmed cases have anosmia. In South Korea, where testing has been more widespread, 30% of patients testing positive have had anosmia as their major presenting symptom in otherwise mild cases”.

     De acordo com o estudo de Mao e colaboradores (2020), baixo percentual desses sintomas olfatórios e gustativos foram descritos em 214 pacientes hospitalizados na China, onde 36% das pessoas internadas tiveram manifestações neurológicas centrais, sendo vertigem (16,8% dos casos), cefaleia (13,1%), hipogeusia (5,6%) e hiposmia (5,1%) identificados entre os dias 16 de janeiro e 19 de fevereiro do corrente ano. Houve também relatos de alteração de nível de consciência e de acidente vascular cerebral isquêmico e hemorrágico, esses com pior prognóstico. Tais dados requerem mais comparações metodológicas, identificação da presença de comorbidades e o estabelecimento das relações causais pertinentes.

     Comparativamente, Lechien, Chiesa, Saussez e Ayad juntamente com 29 co-autores de Força Tarefa Internacional (2020), conjugando colegas da Bélgica, Itália, Espanha, França, Suiça e Canadá, publicaram “Olfactory and Gustatory Dysfunctions as a Clinical Presentation of Mild to Moderate forms of the Coronavirus Disease (COVID-19): A Multicenter European Study” como segue:

Objective: To investigate the occurrence of olfactory and gustatory dysfunctions in patients with laboratory-confirmed COVID-19 infection.

Methods: Patients with laboratory-confirmed COVID-19 infection were recruited from 12 European hospitals. The following epidemiological and clinical outcomes have been studied: age, sex, ethnicity, comorbidities, general and otolaryngological symptoms. Patients completed olfactory and gustatory questionnaires based on the smell and taste component of the National Health and Nutrition Examination Survey, and the short version of the Questionnaire of Olfactory Disorders-Negative Statements (sQOD-NS).

Results: A total of 417 mild-to-moderate COVID-19 patients completed the study (263 females). The most prevalent general symptoms consisted of cough, myalgia and loss of appetite. Face pain and nasal obstruction were the most specific otolaryngological symptoms. 85.6% and 88.0% of patients reported olfactory and gustatory dysfunctions, respectively. There was a significant association between both disorders (p<0.001). Olfactory dysfunction (OD) appeared before the other symptoms in 11.8% of cases. The sQO-NS scores were

significantly lower in patients with presumed anosmia compared with normosmic or presumed hyposmic individuals (p=0.001). Among the 18.2% of patients without nasal obstruction or rhinorrhea, 79.7% had olfactory dysfunction. The early olfactory recovery rate was 44.0%. Females were significantly more affected by olfactory and gustatory dysfunctions than males (p=0.001).

Conclusion: Olfactory and gustatory disorders are prevalent symptoms in European COVID19 patients, who  may not have nasal symptoms. The sudden olfactory and gustatory dysfunctions need to be recognized by the international scientific community as important symptoms of the COVID-19 infection.”

      O período de recuperação da percepção de odores tem sido de cerca de 2 semanas após o término dos demais sintomas sistêmicos em 25% até 44% dos pacientes, mas se espera que esse tempo possa se prolongar por mais semanas e até meses para alguns dos demais. A recuperação do paladar tem ocorrido aleatoriamente em relação à olfação. Não se sabe a fisiopatologia de tais sintomas, os quais não estão associados com rinorreia ou obstrução nasal.

     São possibilidades a serem testadas, por exemplo: (1) alterações inflamatórias diretamente no início das vias sensitivas olfatória e gustativa, (2) disfunção da atividade neural das vias aferentes com repercussão central, (3) a possibilidade de deslocamento do vírus por via hemática ou por transporte neural a partir do bulbo olfatório, (4) a alteração da função neuronal e glial nesse trajeto nervoso ou em demais locais onde haja maior adesão celular do vírus e sua multiplicação, (5) em isso ocorrendo, as alterações funcionais decorrentes das respostas inflamatórias diretamente no tecido nervoso e as alterações nervosas em consequência dos distúrbios homeostáticos sistêmicos, (6) alteração da modulação feita pelo sistema nervoso central na resposta imunológica e no controle central da respiração, e (7) a possibilidade de mutações virais (ocorrendo em um mesmo indivíduo e/ou em países distintos) terem impactos diferentes no grau de acometimento nervoso.

   Lechien e co-autores assim descreveram alguns achados anteriores referentes a essas possibilidades: “Thus, for the SARS-CoV receptor (human angiotensin-converting enzyme 2), it has been demonstrated on transgenic mice that SARS-CoV may enter the brain through the olfactory bulb, leading to rapid transneuronal spread [Netland et al., 2008]. Interestingly, authors demonstrated that the virus antigen was first detected 60 to 66 hours post-infection and was most abundant in the olfactory bulb. Regions of the cortex (piriform and infralimbic cortices), basal ganglia (ventral pallidum and lateral preoptic regions), and midbrain (dorsal raphe) were also strongly infected after the virus had spread [Netland et al., 2008]; these regions are connected with the olfactory bulb. The rapid spread of SARS-CoV in the brain was also associated with significant neuronal death. In humans, autopsy samples from eight patients with SARS revealed the presence of SARS-CoV in brain samples by immunohistochemistry, electron microscopy, and real-time RT-PCR [Gu et al., 2005]. It is currently suspected that the neuroinvasive potential of SARS-CoV2 plays a key role in the respiratory failure of COVID-19 patients [Li et al., 2020]. Medical imaging and neuropathology will certainly play an important rule to detect abnormalities in olfactory bulb, cranial nerves and brain of COVID-19 patients… Future epidemiological, clinical and basic science studies must elucidate the mechanisms underlying the development of these symptoms in… a specific world population.” Quadro de encefalite fatal foi relacionado à infecção por coronavírus OC43 (Morfopoulou et al., 2016), mas não há dados definitivos até o momento para a COVID-19 (última referência abaixo).

    Igualmente importante de ser considerado são os impactos psicológicos/psiquiátricos que o período de isolamento social vem gerando nas pessoas e as elaborações complexas que vão desde os riscos da negação de fatos e crenças em inverdades ou opiniões anticientíficas aos sentimentos de angústia, quadros de ansiedade e depressão, distúrbios do sono e do apetite ou, ainda, como as pessoas em sociedade lidam com as informações negativas (envolvendo número de mortes noticiadas diariamente, possibilidade de colapso de atendimento hospitalar ou funerário, desamparo social, fome e perda de emprego) ou positivas (empatia, descobertas científicas para chances de tratamento, vacinas ou relatos de casos assintomáticos, brandos ou de sobreviventes).

 

Fontes:

https://www.entnet.org/sites/default/files/uploads/lechien_et_al._-_covid19_-_eur_arch_otorhinolaryngol_.pdf

 

https://web.umons.ac.be/en/coronavirus-recommendations-from-the-umons-authorities-to-staff-and-students/

 

http://www.aborlccf.org.br/imageBank/2020-03-22_4%C2%AA_nota_abr_anosmia_ce_lnss_cens.pdf

 

https://www.entuk.org/sites/default/files/files/Loss%20of%20sense%20of%20smell%20as%20marker%20of%20COVID.pdf

 

Mao L, Wang M, Chen S, et al. Neurological Manifestations of Hospitalized Patients with COVID-19 in Wuhan, China: a retrospective case series study. MedRXiv, in press. 2020. doi: https://doi.org/10.1101/2020.02.22.20026500

 

Netland J, Meyerholz DK, Moore S, Cassell M, Perlman S. Severe acute respiratory syndrome coronavirus infection causes neuronal death in the absence of encephalitis in mice transgenic for human ACE2. J Virol. 2008; 82(15):7264-75.

 

Gu J, Gong E, Zhang B, et al. Multiple organ infection and the pathogenesis of SARS. J Exp Med. 2005; 202(3):415-24.

 

Li YC, Bai WZ, Hashikawa T. The neuroinvasive potential of SARS-CoV2 may play a role in the respiratory failure of COVID-19 patients. J Med Virol. 2020.

 

Morfopoulou S, Brown J R, Davies EG, Anderson G, Virasami A, Qasim W et al. Human coronavirus OC43 associated with fatal encephalitis. N Engl J Med. 2016; 375(5): 497-8.

 

https://pebmed.com.br/encefalopatia-e-covid-19-dois-relatos-de-caso/

O isolamento social é um dos principais métodos de prevenção contra a COVID-19, mas existem outros cuidados a serem tomados, como manter distância segura das outras pessoas e evitar contatos como beijos e abraços. Para entender melhor, confira as informações de Fernando Colombari, Diretor de Prática Médica do Americas Serviços Médicos. E lembre-se que, dessa forma, você nos ajuda a manter a saúde de todos em segurança. #FiqueEmCasa

MANIFESTO DE COLABORAÇÃO CIENTÍFICA  E SOLIDARIEDADE 

Como é de público conhecimento, estamos a experimentar verdadeira epidemia global, com profundos impactos em nossa sociedade. Assim como o coronavírus tem ultrapassado sucessivas fronteiras, tal infecção afeta diversos sistemas biológicos, como os sistemas respiratórios, cardiovascular e digestório, por exemplo. À luz da história, a única proteção contra uma pandemia surge do compartilhamento de informações científicas confiáveis e da solidariedade global. Com isso, a Diretoria da Sociedade Brasileira de Fisiologia, alicerçada nos melhores princípios da entidade que norteiam as ações de seus membros docentes, discentes e técnicos, nas universidades, institutos e centros de ensino em todos os estados da federação, coloca-se à disposição da população e, em especial, aos colegas que estão na linha de frente nas comunidades, nos atendimentos em todos os níveis e nos hospitais, para auxiliar a resolver os desafios fisiológicos e fisiopatológicos associados ao decurso de tal doença.

 

Estamos à disposição para contribuir com os raciocínios baseados nos nossos conhecimentos atuais, sob todas as condições profissionais e éticas vigentes e imprescindíveis, reforçando uma rede de colaboração científica.

 

Contem conosco! Com os melhores votos de saúde e paz para o futuro em breve.

OFFER OF SCIENTIFIC COLLABORATION AND SOLIDARITY

As publicly noticed, we are experiencing a true pandemic with profound impacts on our society. The coronavirus disease (COVID-19) affects human biological systems, such as the respiratory, cardiovascular and digestive systems. In the course of history, the best approaches against a pandemic arise from the sharing of reliable scientific information and global solidarity. In this regard, the Board of the Brazilian Society of Physiology, based on the best principles that guide the actions of its teaching staff, students and technicians, in universities, institutes and teaching centers in all states of the federation, engages with the population and, in particular, to colleagues who are at the forefront in communities, at health care centers at all levels and in specialized hospitals, to help solve the physiological and pathophysiological challenges associated with the course of COVID-19.

We are available to contribute with our current knowledge, under all the professional and ethical conditions, reinforcing a network of scientific collaboration.

Count on us!

Coronavírus: 'Infectado vira fábrica de vírus antes de ter sintomas', diz pesquisadora da UFRJ

Grupo liderado por Patrícia Rocco trabalha para desenvolver terapia com células-tronco contra a Covid-19 em pacientes com quadro crítico

Ana Lucia Azevedo

24/03/2020 - 04:30 / Atualizado em 24/03/2020 - 10:35

O Globo - Editora Globo S/A

"ECA2 uma faca de dois gumes?"

"ACE2 a double-edged sword?"

ENG

POR

Maria Jose Campagnole-Santos

Professora Titular

Departamento de Fisiologia e Biofísica

Instituto de Ciências Biológicas

Universidade Federal de Minas Gerais

Nos últimos meses, a pandemia da doença de coronavírus 2019 (COVID-19) colocou muitos países em crise. Estudos demonstraram que esse vírus causa piores resultados e maior mortalidade nos homens do que nas mulheres. Foi reconhecido que o sexo pode afetar a resposta imune a um agente patogênico, bem como a suscetibilidade a algumas doenças respiratórias. Essas diferentes respostas em homens e mulheres podem estar relacionadas às ações dos hormônios sexuais. A enzima conversora de angiotensina 2 (ECA2) atua como receptor do coronavírus da síndrome respiratória aguda grave (SARS-CoV), que causa o COVID-19. A expressão da ECA2 é influenciada por hormônios sexuais; portanto, discutimos neste artigo que esse poderia ser um dos motivos pelos quais o COVID-19 é mais prevalente em homens do que em mulheres.

Profa. Dra. Luciane H. Gargaglioni Batalhão

Departamento de Morfologia e Fisiologia Animal
Fac. de Ciências Agrárias e Veterinárias / UNESP

Distinct phenotypes require distinct respiratory management strategies in severe COVID-19

 

ARTICLE INFO
Keywords
COVID-19
SARS-CoV-2
Mechanical ventilation
Prone position
Positive end expiratory pressure
Non-Invasive ventilation

ACE2 (Angiotensin-Converting Enzyme 2), COVID-19, and ACE Inhibitor and Ang II (Angiotensin II) Receptor Blocker Use During the Pandemic

 

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